Em mais um desses dias normais, de uma manhã chuvosa. Sem ter o que fazer busquei por uma distração na tela de uma TV. Fiquei “zapeando” por alguns segundos e, como estava na hora do almoço, em quase todos os canais passava algum tipo de noticiário. Parei em uma notícia que chamou minha atenção de uma forma extremamente desagradável. Tratava-se do caso de um adolescente que havia sido encontrado morto ao lado da irmã que dormia, na casa de sua própria mãe. A causa da morte não foi difícil de ser identificada, segundo o laudo, o adolescente havia morrido de FOME. No seguimento da notícia apareceu o pai do adolescente relatando que por quatro anos lutava pela guarda de seu filho, em vão, pois sempre teve seu pedido negado e que por varias vezes prestara queixas contra a ex-mulher declarando maus tratos contra seu filho (que por várias outras vezes fugira de casa), igualmente vans. E a “justiça”, a quem este homem já havia recorrido por tantas vezes, na tentativa de salvar a vida de seu filho, no fim de tudo, lhe deu como única resposta o corpo, inerte e já desfigurado (pela fome extrema) do seu filho. Quanto à mãe, de acordo com relatos passou a maltratar seus filhos após a morte de seu último marido.
Ao final da reportagem não consegui atentar mais nada. A única atitude que pude tomar foi chorar. Chorei como se tivesse conhecido o rapaz que falecera. E não pude evitar ver toda sua história de vida passar diante de meus olhos, era como se a reportagem tivesse vasculhado toda a vida do rapaz para nos mostrar tudo o que lhe aconteceu culminando com sua morte . Claro que na TV, todos já estavam rindo e a triste história do rapaz já havia dado lugar a mais uma das banalidades que tanto nos alienam hoje em dia, mas em minha mente, o corpo do rapaz gritava muito mais do que as vozes no noticiário e do que meus ouvidos eram capazes de suportar. As condições em que vivia, o relevo de seus ossos inacreditavelmente visíveis através de sua pele evidenciando a extrema desnutrição de seu organismo. Tudo isso brandia em minha mente. Porém, o que mais me atormentava, era tudo aquilo que outrora, silenciado pela morte do rapaz, agora bradava não só pelos poucos minutos de exposição nesta reportagem, mas principalmente, através do desespero de um pai órfão de seu filho e da inconformidade de pessoas que, como eu, aos poucos, vão se despedindo de suas ilusões e esperanças enquanto tentam imaginar como pudemos chegar a este ponto.
Como, afinal de contas, chegamos ao ponto em que um sofrimento é tão insuportável que nos faz morrer em vida, esquecendo de coisas tão preciosas e caras a nós como a vida de um filho? Como chegamos ao um ponto onde é justificável matar ou morrer por um jogo, ou pelo que quer que seja? Como chegamos a um ponto onde é mais importante a busca incessante por padrões impossíveis, do que aceitar a si mesmo? Como chegamos a um ponto onde é mais importante excluir, hostilizar e calar as diferenças, do que assumir e aceitar as mudanças? Enfim, como nos perdemos tanto no caminho que chegamos a um ponto onde a trilha perece tão estreita que não dá para continuar, e de onde talvez não possamos sequer nos virar para tentar encontrar o caminho de volta. Será que ainda temos fôlego para abandonar esta trilha de certezas e verdades prontas e inquestionáveis para abrir novos caminhos em meio às dúvidas, incertezas e novas esperanças? Tomara que sim, pois acredito que o importante não é onde chegamos e sim como chegamos lá, o que deixamos pelo caminho e se ainda há algo que nos impulsione a continuar.
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