sábado, 27 de agosto de 2011

Pausa na rotina!


Era mais um dia como outro qualquer. Estava estressada por tantas coisas que tinha para fazer. Estava pensando em mil coisas ao mesmo tempo e não fazia a menor idéia de por onde deveria começar. Para piorar a situação estava dando tudo errado. Havia acordado atrasada; tinha uma reunião importantíssima; meu chefe estava descontente com meus resultados no trabalho (estava quase sendo demitida); havia brigado com meu marido (de quem estava a um fio de me divorciar); meus filhos não paravam de brigar; o ônibus estava atrasado, por ter havido um acidente na estrada (o que significaria que ficaria presa em um engafarramento medonho); e para melhorar a minha situação o salto do meu sapato havia quebrado e não daria tempo de voltar para casa para trocá-lo. Assim, em um momento de puro desespero e em uma crise profunda de depressão (para qual, aliás, já faço tratamento à algum tempo, pois já passei por algumas tentativas de suicídio) me sentei no ponto de ônibus e chorei copiosamente. Não conseguia pensar o que havia feito de tão errado em minha vida para que ela estivesse assim tão ruim. Não conseguia pensar em nenhuma saída para solucionar pelo menos parte dos meus problemas. Não conseguia encontrar nenhum sentido em minha vida.  
Foi então que ouvi alguém me perguntar o porquê de tanto desespero. Não me lembrava de ter visto ninguém ao meu lado, então virei-me por instantes para ver de onde vinha a voz. Percebi uma figura no mínimo estranha, com semblante sério e uma postura firme. Ela me encarava sem qualquer constrangimento. Logo minha tristeza deu lugar ao estranhamento e a desconfiança. Como estava sozinha no ponto comecei a imaginar situações nada confortáveis, afinal de contas não se pode confiar em ninguém hoje em dia. Ficamos um tempo em silêncio, nos encarando, e até este ponto eu já havia me acalmado. Após alguns estantes, a pessoa me indagou novamente sobre o que havia me ocorrido para que estivesse assim tão desesperada. Ainda estava apreensiva, porém por algum motivo, sua figura me passava agora um sentimento um pouco diferente. Ainda me sentia incomodada, mas ao mesmo tempo, sua figura me transmitia certa segurança (ou seria mais um sentimento de familiaridade?). Enfim, talvez fosse seu tom de voz firme, ou sua postura austera. Fato é que precisava desabafar, e como não havia mais ninguém por perto, e talvez nunca mais nos víssemos novamente, não vi mal algum em contar-lhe toda minha história de vida (que sempre fora difícil!), e todo o sofrimento pelo qual estava passando.
A esta altura do campeonato já não havia sentido em ir para o trabalho, já era tarde e a reunião já havia acabado há muito. Continuei contando minha triste história. Disse-lhe que sempre me julguei uma boa pessoa e que não entendia porque estas coisas estavam me acontecendo, afinal de contas, sempre acreditei que somente os maus eram castigados e que coisas boas aconteciam para pessoas boas. Quando olhei para o rosto da pessoa com a qual conversava, não pude deixar de perceber certa expressão de felicidade, talvez um ar de ironia. Imediatamente parei de falar e, muito brava, comecei a brigar com esta pessoa. Perguntei-lhe que tipo de pessoa faz graça com o sofrimento alheio? Que tipo de pessoa consegue ver um próximo passando por situações tão horríveis, e não fazer nada? Nem se quer se compadecer da situação do seu próximo? Enquanto eu praguejava reparei que a pessoa se preparava para pegar alguma coisa, mas não me interessei em ver o que era, estava com tanta raiva, que não podia parar de falar. Talvez estivesse descontando toda minha frustração nesta pessoa, fato é que dei seguimento a meus chingamentos. Continuei indagando; que tipo de pessoa poderia ser tão egoísta a ponto de achar graça, ou nem se importar com o que acontece a sua volta?
Neste momento esta pessoa me deu um espelho, e ficou me olhando com toda seriedade que lhe cabia. Não entendi o que estava acontecendo e, aos berros, lhe perguntei: Já não basta de gracinhas para o meu lado, ainda não ganhou o dia? Então, com toda a calma a pessoa me respondeu: Você não estava me perguntando que tipo de pessoa pode ser tão egoísta e não se preocupar com o sofrimento alheio? Pois bem, esta é minha resposta para você. Antes de acusar a pessoas desconhecidas, tente olhar-se no espelho e questione primeiramente suas ações. Depois dessa resposta fiquei sem palavras e não tinha idéia do que dizer. A pessoa, vendo minha reação, deu prosseguimento à interlocução. Ela seguiu dizendo que todos os dias chegam até nós notícias de pessoas, na áfrica, lutando contra fome, doenças e contra a certeza da morte em suas vidas (mesmo sabendo que não têm a menor possibilidade de vencerem essa guerra); mas você vira a cara ou simplesmente desliga a TV, diz que já sofre demais para se preocupar com o sofrimento alheio.
 Diariamente, recebemos notícias de que mais uma mulher mulçumana foi morta e torturada por suspeitas infundadas, e por aqueles que deveriam reconhecê-la como pessoa, como cidadã e protegê-la; e você diz que é uma pena, da boca para fora, porque está mais preocupada pensando em como o seu marido não lhe dá o devido valor.

 Todos os dias milhares de pessoas perdem os sonhos, a liberdade e a vida de forma trágica e brutal. Tudo o que você diz é que como não pode fazer nada é melhor nem pensar a respeito. Então, eu ri sim, mas ri da ironia. Afina,l você estava dizendo que não há quem se compadeça de seu sofrimento, quando ali mesmo, naquele ponto de ônibus, você não pode perceber quantas pessoas estavam a sua volta. Pessoas pelas quais você passa todos os dias e que, talvez, você não precisasse gastar um centavo para ajudá-las. Talvez estas pessoas quisessem o mesmo que você; atenção!
Então recobrei minha razão e perguntei quem esta pessoa achava que era para ficar me dando lição de moral. E como sabia tanto sobre o meu dia a dia? E afinal que pessoas eram essas que nunca havia visto. Neste instante, ela me olhou nos olhos e respondeu: “Meu nome é REALIDADE. Sei de todas estas coisas porque estou aqui todos os dias e vejo como você passa sempre apressada e pensativa. Tanto, que nunca reparou em mim ou em qualquer outra coisa a sua volta. Nunca percebeu que, diariamente, tento ser notada por você, mas você sempre me ignora.” Parei e pensei por um tempo em tudo o que havíamos conversado e na forma como tenho vivido. Olhei em volta e comecei a perceber tudo o que nunca havia reparado antes, as pessoas, a vida e a luta de cada uma, para além do meu sofrimento e da minha amargura. Já mais calma, resolvi perguntar ainda meio desconfiada: “Se você sempre esteve por aqui mesmo; porque eu nunca havia lhe visto?” E de pronto ela me respondeu: “Como eu lhe disse, estou aqui todos os dias, mas você nunca havia aberto os seus olhos para me enxergar. Você sempre viveu tão fechada em seu próprio mundinho, com seus conflitos e dilemas, que no final das contas não tinha mais energia para ver ou ouvir qualquer coisa que lhe exigisse se afastar de si mesma. Hoje, porém, que você parou, não para pensar nos seus problemas, mas para desabafar, você pode se livrar um pouco da carga, muitas vezes desnecessária, que você tem carregado. Ao fazer isso, você abriu espaço para coisas diferentes em sua vida. Você pode deixar de lado algumas de suas verdades, tão completas de si e tão pesadas, para dar lugar a, um pouco, da realidade que a cerca. Que longe de ser algo imutável e estático, é um mar de possibilidades, desafios e conquistas que só dependem de muita força de vontade, algum altruísmo e muita perseverança para ser transformada.”        

Vivian da Conceição Vitorino.
19/08/2011


[1] Ganhadora do Prêmio Pulitzer em 1994 e publicada pelo The New York Times, a foto foi tirada em 1993 no Sudão, pelo fotógrafo sul-africano Kevin Carter(1960-1994). Esta descreve uma criança faminta sem forças para continuar rastejanado para um campo de alimento da ONU, a um quilômetro dali. O urubu espera a morte desta para então poder devorá-la.
Carter disse que esperou em torno de vinte minutos para que o urubu fosse embora, mas isto não aconteceu. Então rapidamente tirou a foto e fez o urubu fugir dali, açoitando-o. Em seguida, saiu dali o mais rápido possível.
O fotógrafo criticou duramente sua postura por apenas fotografar, mas não ajudar, a pequena garota: “Um homem ajustando suas lentes para tirar o melhor enquadramento de sofrimento dela talvez tambem seja um predador, outro urubu na cena.”, teria dito. Um ano depois o fotógrafo, em profunda depressão, suicidou-se. O paradeiro da criança é desconhecido.
Eu estou depressivo… sem telefone… dinheiro para o aluguel… dinheiro para o sustento de criança… dinheiro para dívidas… dinheiro!!!… Eu estou sendo perseguido pela viva memória de matanças, cadáveres, cólera e dor… pela criança faminta ou ferida… peloss homens loucos com o dedo no gatilho, muitas vezes policial, assassinos…
Trecho de sua carta de suicídio

terça-feira, 26 de abril de 2011

Mais um dia, menos uma ilusão.


Em mais um desses dias normais, de uma manhã chuvosa. Sem ter o que fazer busquei por uma distração na tela de uma TV. Fiquei “zapeando” por alguns segundos e, como estava na hora do almoço, em quase todos os canais passava algum tipo de noticiário. Parei em uma notícia que chamou minha atenção de uma forma extremamente desagradável. Tratava-se do caso de um adolescente que havia sido encontrado morto ao lado da irmã que dormia, na casa de sua própria mãe.  A causa da morte não foi difícil de ser identificada, segundo o laudo, o adolescente havia morrido de FOME. No seguimento da notícia apareceu o pai do adolescente relatando que por quatro anos lutava pela guarda de seu filho, em vão, pois sempre teve seu pedido negado e que por varias vezes prestara queixas contra a ex-mulher declarando maus tratos contra seu filho (que por várias outras vezes fugira de casa), igualmente vans. E a “justiça”, a quem este homem já havia recorrido por tantas vezes, na tentativa de salvar a vida de seu filho, no fim de tudo, lhe deu como única resposta o corpo, inerte e já desfigurado (pela fome extrema) do seu filho. Quanto à mãe, de acordo com relatos passou a maltratar seus filhos após a morte de seu último marido.
Ao final da reportagem não consegui atentar mais nada. A única atitude que pude tomar foi chorar. Chorei como se tivesse conhecido o rapaz que falecera. E não pude evitar  ver toda sua história de vida passar diante de meus olhos, era como se a reportagem tivesse vasculhado toda a vida do rapaz para nos mostrar tudo o que lhe aconteceu culminando com sua morte . Claro que na TV, todos já estavam rindo e a triste história do rapaz já havia dado lugar a mais uma das banalidades que tanto nos alienam hoje em dia, mas em minha mente, o corpo do rapaz gritava muito mais do que as vozes no noticiário e do que meus ouvidos eram capazes de suportar. As condições em que vivia, o relevo de seus ossos inacreditavelmente visíveis através de sua pele evidenciando a extrema desnutrição de seu organismo. Tudo isso brandia em minha mente. Porém, o que mais me atormentava, era tudo aquilo que outrora, silenciado pela morte do rapaz, agora bradava não só pelos poucos minutos de exposição nesta reportagem, mas principalmente, através do desespero de um pai órfão de seu filho e da inconformidade de pessoas que, como eu, aos poucos, vão se despedindo de suas ilusões e esperanças enquanto tentam imaginar como pudemos chegar a este ponto.
Como, afinal de contas, chegamos ao ponto em que um sofrimento é tão insuportável que nos faz morrer em vida, esquecendo de coisas tão preciosas e caras a nós como a vida de um filho? Como chegamos ao um ponto onde é justificável matar ou morrer por um jogo, ou pelo que quer que seja? Como chegamos a um ponto onde é mais importante a busca incessante por padrões impossíveis, do que aceitar a si mesmo? Como chegamos a um ponto onde é mais importante excluir, hostilizar e calar as diferenças, do que assumir e aceitar as mudanças? Enfim, como nos perdemos tanto no caminho que chegamos a um ponto onde a trilha perece tão estreita que não dá para continuar, e de onde talvez não possamos sequer nos virar para tentar encontrar o caminho de volta. Será que ainda temos fôlego para abandonar esta trilha de certezas e verdades prontas e inquestionáveis para abrir novos caminhos em meio às dúvidas, incertezas e novas esperanças?  Tomara que sim, pois acredito que o importante não é onde chegamos e sim como chegamos lá, o que deixamos pelo caminho e se ainda há algo que nos impulsione a continuar.              

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Reflexões sobre a Cultura : breve apresentação

Pensando em um velho ditado que diz “recordar é viver” algumas lembranças saudosas inundaram minha mente. Lembrei de minha infância gaúcha quando o arroio local se transformava em um palco, onde demonstrações de fé e esperança por parte de humildes pescadores integravam o espetáculo principal, do qual eu participava, mesmo sem entender, partilhando de tais sentimentos. Não fosse a devoção que era dedicada em homenagem a tão simples imagem sua importância poderia ter passado por mim desapercebidamente. Só pouco tempo depois pude entender que essa era uma festa em honra a Nossa Sr.ª dos Navegantes e que aquela imagem tão simples, era nada mais que a imagem de sua padroeira, a representação terrena de sua fé. Nessa época também, descobri a existência de um sentimento que marcou fortemente minha vida familiar e minha forma de enxergar a vida. Foi a escola, a responsável por este importante aprendizado, que longe de ter sido agradável nos trouxe o peso de ressentimentos e hostilidades que certas situações nos impunham, mas que apesar disto teve uma importância crucial para meu amadurecimento e crescimento apesar da pouca idade. E, apesar de já saber o que significavam, somente algum tempo depois pude compreender e nomear estes sentimentos de racismo, de preconceito, que por um tempo foram nossos mais íntimos companheiros.
Lembrei de minha adolescência pantaneira quando pude compor uma das mais belas riquezas naturais do nosso país. Quando não precisava pagar ingresso para presenciar um dos mais lindos shows de que posso recordar, quando ao final da tarde o sol em toda sua imponência, parecia pedir licença para se retirar. Apresentando um festival visual em tons de amarelo e vermelho, que emprestavam seu brilho para as águas do rio Paraguai. Estas por minutos despediam-se de seu aspecto barrento e ganhavam um brilho dourado que, aos poucos, ia se perdendo na escuridão da noite. Invejosa, avançava com seu manto estrelado sobre os céus abençoados daquele lugar. Recordei das conversas no portão, quando não precisávamos nos encarcerar em nossas casas, onde alguns amigos se reunião para tomar tereré (típica bebida Pantaneira) e relembrar as histórias de infância que realmente me encantavam. Como de quando brincavam no rio e se enfiavam mato adentro para caçar bichos diversos, enfim uma infância que só poderia ser traduzida pela palavra liberdade. Foi nessa época que aprendi a dançar vanerão e chamamé freqüentando alguns rodeios, provei caldo de piranha e carne de jacaré, enfim partilhei de todas as formas que pude daquele estilo de vida que me era tão novo e diferente daquilo que conhecia.
Recordo-me ainda de uma fase onde, influenciada pelas histórias de uma professora que tive no último ano do ensino médio, tornei-me, juntamente com minha turma, extremamente politizada. Nós chegamos a ajudar na organização, e é lógico participamos de uma manifestação estudantil em favor do passe livre para estudantes. Bom ela nos falava sobre a época em que também cursava o ensino médio, em plena ditadura militar, onde não desfrutavam das mesmas oportunidades que tínhamos para se expressarem. Eles precisavam ser cuidadosos e montavam mil artimanhas caso fossem apanhados pela polícia para tentar despistá-los. Eles viveram em uma época onde os pensamentos livres e criativos eram uma ameaça e eram tratados como tal. A despeito de toda a hostilidade que sofreram eles resistiram e lutaram, e eles conseguiram a partir disto criar uma época onde nos é possível exercitar os direitos conquistados e mais ainda, onde nos é possível exercitar o nosso direito de conquistar, mas não precisamos mais de nossa força bruta, precisamos apenas da força de nossa opinião.
Todas estas recordações fazem muito mais do que integrar a minha identidade, elas integram parte da minha estória de vida. Através delas o que sou e o que fiz estão marcados não só em mim, mas na estória de todas as pessoas e lugares que fizeram ou fazem parte delas, incorporadas as suas identidades. Assim através de nossas memórias nos é possível romper com as barreiras do tempo, criando espaços suspensos onde alguns fatos, tradições, hábitos, costumes, enfim, onde nossas criações podem permanecer vivas e intocadas sendo somente agregadas a outras e novas experiências.
É assim que se faz a cultura de um povo, ou de um lugar, através de suas vivencias, de suas experiências e criações, que somadas uma a uma são capazes de compor incríveis manifestações. Como já dizia o poeta e sambista é a “arte popular do nosso chão, onde o povo é quem produz o show e assina a direção”. Ela não é um produto que importamos e consumimos, ela é resultante de nossas estórias, representante da identidade de nosso povo, é nosso instrumento de expressão, ela é nossa voz. E se nossa voz se emudece, ou ganha sotaques estrangeiros, ou se simplesmente não tem nada a dizer sobre nós mesmos, a culpa na está em outro lugar se não em nós mesmos, que a despeito de todas as nossas conquistas passadas nos acomodamos em nosso “berço esplendido” enquanto ele é simplesmente consumindo pelo tempo.