Era mais um dia como outro qualquer. Estava estressada por tantas coisas que tinha para fazer. Estava pensando em mil coisas ao mesmo tempo e não fazia a menor idéia de por onde deveria começar. Para piorar a situação estava dando tudo errado. Havia acordado atrasada; tinha uma reunião importantíssima; meu chefe estava descontente com meus resultados no trabalho (estava quase sendo demitida); havia brigado com meu marido (de quem estava a um fio de me divorciar); meus filhos não paravam de brigar; o ônibus estava atrasado, por ter havido um acidente na estrada (o que significaria que ficaria presa em um engafarramento medonho); e para melhorar a minha situação o salto do meu sapato havia quebrado e não daria tempo de voltar para casa para trocá-lo. Assim, em um momento de puro desespero e em uma crise profunda de depressão (para qual, aliás, já faço tratamento à algum tempo, pois já passei por algumas tentativas de suicídio) me sentei no ponto de ônibus e chorei copiosamente. Não conseguia pensar o que havia feito de tão errado em minha vida para que ela estivesse assim tão ruim. Não conseguia pensar em nenhuma saída para solucionar pelo menos parte dos meus problemas. Não conseguia encontrar nenhum sentido em minha vida.
Foi então que ouvi alguém me perguntar o porquê de tanto desespero. Não me lembrava de ter visto ninguém ao meu lado, então virei-me por instantes para ver de onde vinha a voz. Percebi uma figura no mínimo estranha, com semblante sério e uma postura firme. Ela me encarava sem qualquer constrangimento. Logo minha tristeza deu lugar ao estranhamento e a desconfiança. Como estava sozinha no ponto comecei a imaginar situações nada confortáveis, afinal de contas não se pode confiar em ninguém hoje em dia. Ficamos um tempo em silêncio, nos encarando, e até este ponto eu já havia me acalmado. Após alguns estantes, a pessoa me indagou novamente sobre o que havia me ocorrido para que estivesse assim tão desesperada. Ainda estava apreensiva, porém por algum motivo, sua figura me passava agora um sentimento um pouco diferente. Ainda me sentia incomodada, mas ao mesmo tempo, sua figura me transmitia certa segurança (ou seria mais um sentimento de familiaridade?). Enfim, talvez fosse seu tom de voz firme, ou sua postura austera. Fato é que precisava desabafar, e como não havia mais ninguém por perto, e talvez nunca mais nos víssemos novamente, não vi mal algum em contar-lhe toda minha história de vida (que sempre fora difícil!), e todo o sofrimento pelo qual estava passando.
A esta altura do campeonato já não havia sentido em ir para o trabalho, já era tarde e a reunião já havia acabado há muito. Continuei contando minha triste história. Disse-lhe que sempre me julguei uma boa pessoa e que não entendia porque estas coisas estavam me acontecendo, afinal de contas, sempre acreditei que somente os maus eram castigados e que coisas boas aconteciam para pessoas boas. Quando olhei para o rosto da pessoa com a qual conversava, não pude deixar de perceber certa expressão de felicidade, talvez um ar de ironia. Imediatamente parei de falar e, muito brava, comecei a brigar com esta pessoa. Perguntei-lhe que tipo de pessoa faz graça com o sofrimento alheio? Que tipo de pessoa consegue ver um próximo passando por situações tão horríveis, e não fazer nada? Nem se quer se compadecer da situação do seu próximo? Enquanto eu praguejava reparei que a pessoa se preparava para pegar alguma coisa, mas não me interessei em ver o que era, estava com tanta raiva, que não podia parar de falar. Talvez estivesse descontando toda minha frustração nesta pessoa, fato é que dei seguimento a meus chingamentos. Continuei indagando; que tipo de pessoa poderia ser tão egoísta a ponto de achar graça, ou nem se importar com o que acontece a sua volta?
Neste momento esta pessoa me deu um espelho, e ficou me olhando com toda seriedade que lhe cabia. Não entendi o que estava acontecendo e, aos berros, lhe perguntei: Já não basta de gracinhas para o meu lado, ainda não ganhou o dia? Então, com toda a calma a pessoa me respondeu: Você não estava me perguntando que tipo de pessoa pode ser tão egoísta e não se preocupar com o sofrimento alheio? Pois bem, esta é minha resposta para você. Antes de acusar a pessoas desconhecidas, tente olhar-se no espelho e questione primeiramente suas ações. Depois dessa resposta fiquei sem palavras e não tinha idéia do que dizer. A pessoa, vendo minha reação, deu prosseguimento à interlocução. Ela seguiu dizendo que todos os dias chegam até nós notícias de pessoas, na áfrica, lutando contra fome, doenças e contra a certeza da morte em suas vidas (mesmo sabendo que não têm a menor possibilidade de vencerem essa guerra); mas você vira a cara ou simplesmente desliga a TV, diz que já sofre demais para se preocupar com o sofrimento alheio.
Diariamente, recebemos notícias de que mais uma mulher mulçumana foi morta e torturada por suspeitas infundadas, e por aqueles que deveriam reconhecê-la como pessoa, como cidadã e protegê-la; e você diz que é uma pena, da boca para fora, porque está mais preocupada pensando em como o seu marido não lhe dá o devido valor.
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Todos os dias milhares de pessoas perdem os sonhos, a liberdade e a vida de forma trágica e brutal. Tudo o que você diz é que como não pode fazer nada é melhor nem pensar a respeito. Então, eu ri sim, mas ri da ironia. Afina,l você estava dizendo que não há quem se compadeça de seu sofrimento, quando ali mesmo, naquele ponto de ônibus, você não pode perceber quantas pessoas estavam a sua volta. Pessoas pelas quais você passa todos os dias e que, talvez, você não precisasse gastar um centavo para ajudá-las. Talvez estas pessoas quisessem o mesmo que você; atenção!
Então recobrei minha razão e perguntei quem esta pessoa achava que era para ficar me dando lição de moral. E como sabia tanto sobre o meu dia a dia? E afinal que pessoas eram essas que nunca havia visto. Neste instante, ela me olhou nos olhos e respondeu: “Meu nome é REALIDADE. Sei de todas estas coisas porque estou aqui todos os dias e vejo como você passa sempre apressada e pensativa. Tanto, que nunca reparou em mim ou em qualquer outra coisa a sua volta. Nunca percebeu que, diariamente, tento ser notada por você, mas você sempre me ignora.” Parei e pensei por um tempo em tudo o que havíamos conversado e na forma como tenho vivido. Olhei em volta e comecei a perceber tudo o que nunca havia reparado antes, as pessoas, a vida e a luta de cada uma, para além do meu sofrimento e da minha amargura. Já mais calma, resolvi perguntar ainda meio desconfiada: “Se você sempre esteve por aqui mesmo; porque eu nunca havia lhe visto?” E de pronto ela me respondeu: “Como eu lhe disse, estou aqui todos os dias, mas você nunca havia aberto os seus olhos para me enxergar. Você sempre viveu tão fechada em seu próprio mundinho, com seus conflitos e dilemas, que no final das contas não tinha mais energia para ver ou ouvir qualquer coisa que lhe exigisse se afastar de si mesma. Hoje, porém, que você parou, não para pensar nos seus problemas, mas para desabafar, você pode se livrar um pouco da carga, muitas vezes desnecessária, que você tem carregado. Ao fazer isso, você abriu espaço para coisas diferentes em sua vida. Você pode deixar de lado algumas de suas verdades, tão completas de si e tão pesadas, para dar lugar a, um pouco, da realidade que a cerca. Que longe de ser algo imutável e estático, é um mar de possibilidades, desafios e conquistas que só dependem de muita força de vontade, algum altruísmo e muita perseverança para ser transformada.”
Vivian da Conceição Vitorino.
19/08/2011
[1] Ganhadora do Prêmio Pulitzer em 1994 e publicada pelo The New York Times, a foto foi tirada em 1993 no Sudão, pelo fotógrafo sul-africano Kevin Carter(1960-1994). Esta descreve uma criança faminta sem forças para continuar rastejanado para um campo de alimento da ONU, a um quilômetro dali. O urubu espera a morte desta para então poder devorá-la.
Carter disse que esperou em torno de vinte minutos para que o urubu fosse embora, mas isto não aconteceu. Então rapidamente tirou a foto e fez o urubu fugir dali, açoitando-o. Em seguida, saiu dali o mais rápido possível.
O fotógrafo criticou duramente sua postura por apenas fotografar, mas não ajudar, a pequena garota: “Um homem ajustando suas lentes para tirar o melhor enquadramento de sofrimento dela talvez tambem seja um predador, outro urubu na cena.”, teria dito. Um ano depois o fotógrafo, em profunda depressão, suicidou-se. O paradeiro da criança é desconhecido.
Eu estou depressivo… sem telefone… dinheiro para o aluguel… dinheiro para o sustento de criança… dinheiro para dívidas… dinheiro!!!… Eu estou sendo perseguido pela viva memória de matanças, cadáveres, cólera e dor… pela criança faminta ou ferida… peloss homens loucos com o dedo no gatilho, muitas vezes policial, assassinos…
Trecho de sua carta de suicídio
Carter disse que esperou em torno de vinte minutos para que o urubu fosse embora, mas isto não aconteceu. Então rapidamente tirou a foto e fez o urubu fugir dali, açoitando-o. Em seguida, saiu dali o mais rápido possível.
O fotógrafo criticou duramente sua postura por apenas fotografar, mas não ajudar, a pequena garota: “Um homem ajustando suas lentes para tirar o melhor enquadramento de sofrimento dela talvez tambem seja um predador, outro urubu na cena.”, teria dito. Um ano depois o fotógrafo, em profunda depressão, suicidou-se. O paradeiro da criança é desconhecido.
Eu estou depressivo… sem telefone… dinheiro para o aluguel… dinheiro para o sustento de criança… dinheiro para dívidas… dinheiro!!!… Eu estou sendo perseguido pela viva memória de matanças, cadáveres, cólera e dor… pela criança faminta ou ferida… peloss homens loucos com o dedo no gatilho, muitas vezes policial, assassinos…
Trecho de sua carta de suicídio