Pensando em um velho ditado que diz “recordar é viver” algumas lembranças saudosas inundaram minha mente. Lembrei de minha infância gaúcha quando o arroio local se transformava em um palco, onde demonstrações de fé e esperança por parte de humildes pescadores integravam o espetáculo principal, do qual eu participava, mesmo sem entender, partilhando de tais sentimentos. Não fosse a devoção que era dedicada em homenagem a tão simples imagem sua importância poderia ter passado por mim desapercebidamente. Só pouco tempo depois pude entender que essa era uma festa em honra a Nossa Sr.ª dos Navegantes e que aquela imagem tão simples, era nada mais que a imagem de sua padroeira, a representação terrena de sua fé. Nessa época também, descobri a existência de um sentimento que marcou fortemente minha vida familiar e minha forma de enxergar a vida. Foi a escola, a responsável por este importante aprendizado, que longe de ter sido agradável nos trouxe o peso de ressentimentos e hostilidades que certas situações nos impunham, mas que apesar disto teve uma importância crucial para meu amadurecimento e crescimento apesar da pouca idade. E, apesar de já saber o que significavam, somente algum tempo depois pude compreender e nomear estes sentimentos de racismo, de preconceito, que por um tempo foram nossos mais íntimos companheiros.
Lembrei de minha adolescência pantaneira quando pude compor uma das mais belas riquezas naturais do nosso país. Quando não precisava pagar ingresso para presenciar um dos mais lindos shows de que posso recordar, quando ao final da tarde o sol em toda sua imponência, parecia pedir licença para se retirar. Apresentando um festival visual em tons de amarelo e vermelho, que emprestavam seu brilho para as águas do rio Paraguai. Estas por minutos despediam-se de seu aspecto barrento e ganhavam um brilho dourado que, aos poucos, ia se perdendo na escuridão da noite. Invejosa, avançava com seu manto estrelado sobre os céus abençoados daquele lugar. Recordei das conversas no portão, quando não precisávamos nos encarcerar em nossas casas, onde alguns amigos se reunião para tomar tereré (típica bebida Pantaneira) e relembrar as histórias de infância que realmente me encantavam. Como de quando brincavam no rio e se enfiavam mato adentro para caçar bichos diversos, enfim uma infância que só poderia ser traduzida pela palavra liberdade. Foi nessa época que aprendi a dançar vanerão e chamamé freqüentando alguns rodeios, provei caldo de piranha e carne de jacaré, enfim partilhei de todas as formas que pude daquele estilo de vida que me era tão novo e diferente daquilo que conhecia.
Recordo-me ainda de uma fase onde, influenciada pelas histórias de uma professora que tive no último ano do ensino médio, tornei-me, juntamente com minha turma, extremamente politizada. Nós chegamos a ajudar na organização, e é lógico participamos de uma manifestação estudantil em favor do passe livre para estudantes. Bom ela nos falava sobre a época em que também cursava o ensino médio, em plena ditadura militar, onde não desfrutavam das mesmas oportunidades que tínhamos para se expressarem. Eles precisavam ser cuidadosos e montavam mil artimanhas caso fossem apanhados pela polícia para tentar despistá-los. Eles viveram em uma época onde os pensamentos livres e criativos eram uma ameaça e eram tratados como tal. A despeito de toda a hostilidade que sofreram eles resistiram e lutaram, e eles conseguiram a partir disto criar uma época onde nos é possível exercitar os direitos conquistados e mais ainda, onde nos é possível exercitar o nosso direito de conquistar, mas não precisamos mais de nossa força bruta, precisamos apenas da força de nossa opinião.
Todas estas recordações fazem muito mais do que integrar a minha identidade, elas integram parte da minha estória de vida. Através delas o que sou e o que fiz estão marcados não só em mim, mas na estória de todas as pessoas e lugares que fizeram ou fazem parte delas, incorporadas as suas identidades. Assim através de nossas memórias nos é possível romper com as barreiras do tempo, criando espaços suspensos onde alguns fatos, tradições, hábitos, costumes, enfim, onde nossas criações podem permanecer vivas e intocadas sendo somente agregadas a outras e novas experiências.
É assim que se faz a cultura de um povo, ou de um lugar, através de suas vivencias, de suas experiências e criações, que somadas uma a uma são capazes de compor incríveis manifestações. Como já dizia o poeta e sambista é a “arte popular do nosso chão, onde o povo é quem produz o show e assina a direção”. Ela não é um produto que importamos e consumimos, ela é resultante de nossas estórias, representante da identidade de nosso povo, é nosso instrumento de expressão, ela é nossa voz. E se nossa voz se emudece, ou ganha sotaques estrangeiros, ou se simplesmente não tem nada a dizer sobre nós mesmos, a culpa na está em outro lugar se não em nós mesmos, que a despeito de todas as nossas conquistas passadas nos acomodamos em nosso “berço esplendido” enquanto ele é simplesmente consumindo pelo tempo.
